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Boas histórias de viagem por um casal de jornalistas
 

Christiania em Copenhagen: viva a sociedade alternativa

pra ver no mundoHavíamos lido uma coisa ou outra sobre Copenhagen ter um lugar em que um grupo de pessoas vivia à sua maneira. Confesso que não fui a fundo na pesquisa prévia, mas não imaginava algo maior do que uma feirinha hippie ou coisa assim.

Até passar pelo portão…

Copenhagen - Christiania

Era difícil imaginar que na quase careta Copenhagen uma comunidade alternativa com pegada anarquista sobrevive há 42 anos.

Viva a sociedade alternativa

Visitar Christiania me fez entender mais um motivo que faz de Copenhagen a cidade mais feliz do mundo. A existência da Free Town revela um lado positivo do governo dinamarquês. Logo explico.

Christiania (a Cidade Livre) foi fundada em 1971 a partir de um grupo de moradores do bairro Christianshaven. Os caras pularam as cercas de uma então área militar de 85 acres abandonada à beira do lago pois queriam uma área verde e um parquinho para suas crianças.

O ato chamou a atenção. Meses depois um jornal alternativo publicou uma matéria sobre como a área poderia ser transformada em moradia para muitos jovens que não podiam arcar com um lugar para viver.

A notícia correu o país! Milhares de pessoas tomaram Christiania e criaram um mudo à parte da Dinamarca.

Uma sociedade anarquista que funcionava a partir de suas próprias regras baseadas na liberdade e no senso de comunidade.

Copenhagen - Christiania 2

Difícil, naquela época, seria imaginar que Copenhagen fosse celebrar os 42 anos de Christiania em 2013.

Tomando banho de chapéu

Christiania recebe um milhão de turistas por ano e é uma das atrações mais visitadas de Copenhagen.

Um orgulho tímido mexe com os Copenhagers quando o assunto é a Cidade Livre.

Nosso host Benjamin, 27 anos, me disse: “Não que eu queira morar lá, mas é bom saber que existe uma alternativa. Me deixa feliz, também, o fato de nosso governo respeitar os ideais dos habitantes de Christiania”.

Entre nós: se o cara que mora na cidade mais feliz do mundo gosta de saber que existe uma alternativa, quem sou eu pra discordar, não é?

Brincadeiras de lado, a Dinamarca sempre está nas listas dos melhores do mundo seja lá em que for.

Agora explicando a teoria lançada lá no início: Você já parou para pensar no quanto o governo contribui para a Dinamarca ser o que é hoje?

O respeito pelas pessoas, claramente percebido na estrutura cicloviária da cidade, a tolerância com Christiania e as palavras de um jovem estudante da língua chinesa (!) de 27 anos evidenciam a influência que um governo tem para o bem-estar das pessoas.

Boa parte da felicidade dos dinamarqueses ocorre porque quem manda faz sua parte. Você paga seus impostos, mas não se preocupa com educação, saúde ou que prender sua bike aqui ou ali pode ser perigoso. Reaproveitando uma outra coisa que Benjamin me disse: “Nós não temos preocupação como cidadãos”.

Um tanto óbvio falar isso, mas em tempos de investimentos surreais em Copa do Mundo, aumento do imposto (de 0,38% para 6,38%) para gastos com cartão de débito no exterior, etc, etc, etc, é sempre bom lembrar do nosso país do futuro.

Copenhagen - Christiania 6

Christiania x Governo: uma relação de altos e baixos

O governo dinamarquês já enxergou Christiania como um experimento social e a deixou em paz. Mas durante suas quatro décadas de existência políticos vez ou outra lembravam que a área invadida era de propriedade da União. E era muito valiosa.

Em 2012 o governo decidiu, então, resolver a questão. Ofereceu a área para os moradores por um preço muito abaixo do valor de mercado, concedendo linhas de crédito para o financiamento e garantindo que o modo de vida seria preservado.

A solução dos habitantes, totalmente contrários à ideia de propriedade privada, foi decidir que nenhum indivíduo controlaria o território. O Coletivo sempre teria voz absoluta em Christiania.

O sonho teria acabado?

Mais de 10 mil pessoas já chegaram a viver em Christiania. Hoje são cerca de mil famílias, segundo o Visit Copenhagen, órgão de turismo oficial da cidade.

Essa ótima matéria de Tom Freston (em inglês), que esteve em Christiania nos anos 70 e novamente em 2013 conta detalhes bem interessantes sobre a história de Christiania.

Em um trecho ele cita uma conversa que teve agora com Ole Lykke, um senhor de 67 anos, morador de Christiania desde 1979.

“Nós agora pagamos o dobro do preço pela metade da liberdade considerando os juros e o aumento do aluguel. Nos tornamos uma estrutura capitalista. O Estado, se quiser, pode reajustar o preço do aluguel e aumentar os juros dos financiamentos. Será cada vez mais difícil para pessoas idosas e deficientes físicos terem uma casa aqui”.

Copenhagen - Christiania 1

O Green Light District de Christinia

Além de sua comunidade, feiras de artesanato, cafés e restaurantes de comida vegetariana, o que mais chama a atenção em Christiania é a Pusher Street.

Uma feirinha logo na entrada da Cidade Livre em que se vende maconha e haxixe sem pudores. O consumo dentro de Christiania é permitido, apesar de proibido em Copenhagen. Uma situação única no mundo, talvez.

Mas não pense que vai encontrar tiozinhos de roupa colorida escutando Pink Floyd vendendo unzinho por lá. O clima é um tanto pesado no Green Light District.

Placas com sinal de proibido fotografar estão em todos os lugares e os feirantes têm cara séria e são de pouca conversa. O preço? Com algo entre 50 e 100 coroas dinamarquesas (em torno de £5 a £11) você compra um baseado ou 1 grama de uma ampla variedade.

Copenhagen - Christiania 5

O futuro de Christiania

O temores de Ole Lykke sobre o futuro da Cidade Livre são rebatidos pela esperança de que a Dinamarca legalize a maconha. “Legalizando você acaba com o único argumento de que Christiania é ilegal. O produto seria taxado e legitimado como negócio”, diz.

Que os ventos que sopram do Uruguai ajudem a manter a cidade livre de pé.

Copenhagen - Christiania 4

Placa na saída de Christiania avisa: você agora está entrando na União Europeia

Mais fotos e tour guiado

Temos poucas fotos porque não quisemos correr riscos já que a proibição imperava, mas no Trip Advisor você pode ver algumas.

Lá ficamos sabendo de um tour que rola às 15h, se não me engano diariamente e tinha um preço bem acessível. Fico devendo os detalhes porque não conseguimos fazer. Chegamos lá mais para o fim do dia, mas espero que ajude.

Onde fica

Fomos pra lá pedalando, mas a estação de metrô mais próxima é a de Christianshavn. Um mapa vai te ajudar.

Vale a leitura

Visit Copenhagen – Christiania

Rolling Stone – Christiania, o paraíso perdido

Vanity Fair – You are now leaving the European Union

Copenhagen: a cidade das bicicletas

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Jornalista, autor do Pra Ver Em Londres e empreendedor digital. Vejo o home office como um estilo de vida, faço parte da revolução da bicicleta e acredito que morar em países diferentes de tempos em tempos é fundamental.

Latest comments
  • Que máximo!! Não sabia dessa sociedade alternativa. Que bacana! Eu já visitei uma sociedade alternativa no ES, ficamos hospedados lá por um tempo, mas não é nada assim super organizado e legalizado. Muito legal mesmo, adorei.

  • Muito interessante saber da existência dessa sociedade alternativa (me deu uma saudades do Raul Seixas: viva… viva a sociedade alternativa!).
    Leitura interessante… vou deitar e meditar sobre o assunto e até pensar se não dá para fundar aqui no Hugo Lange uma sociedade dessas! bjs

  • Oi, João!

    Que texto bacana!! A desinformada aqui nunca sequer tinha ouvido falar de uma comunidade assim e, quem diria!, que fica em Copenhagen!

    Imagina se a moda pega aqui no Brasil? Nunca que daria certo. O tal “senso de comunidade” não se vê muito por aqui (dá pra ver que moro num edifício problemático? hehehehe). Assim sendo, certamente entrará no meu roteiro de possíveis lugares pra visitar um dia.

    Feliz 2014 pra vc e pra Nah!

  • Oi gente! bom, voltando aqui pq acabei de voltar de lá né? e lembrava q vcs tinham escrito esse post. olha, eu acho que a proposta original do christiania é bem interessante, mas passeando lá a última coisa que me pareceu é q é um lugar bacana, que recebe pessoas que nao teriam como pagar um lifestyle no centro da cidade. os caras mascarados e a sinalizacao ‘proibido correr e proibido fotografar’ falaram mais alto pra mim. nao achei o lugar com uma atmosfera leve, alternativa ou sequer ‘free’ – aliás, fiquei bem tensa lá dentro! acho sim super legal existir essa alternativa e aparentemente conviver em harmonia com o governo e sociedade. mas achei que quem vende maconha nao é dali – é gente de fora. fiquei com essa impressao. afinal, se la dentro pode, porque eles estariam mascarados? nao sei… fiquei super na duvida mesmo, sem saber o q pensar. queria vir aqui dividir com vcs : )
    eu tbem acho que quando legalizar, a coisa ali vai mudar de figura. vamos ver, o tempo dirá, espero que seja logo!

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